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Histórias de bichos

Luis Fernando Verissimo

Do baú. Dizem que os animais domésticos ficam parecidos com os seus donos e vice-versa. Nem sempre a reciprocidade funciona. Por exemplo: depois de anos de convivência com o seu gato Ramsés, hoje a dona Cecilia toma leite em pires, mia muito e se lambe toda, mas o Ramsés, por mais que tente, não consegue se interessar pela doutrina kardecista.

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Fiquei olhando para o cachorro com simpatia, depois que o dono me disse que ele era de uma raça polar que trazia na sua composição genética a disposição para enfrentar ursos, mas tinha que viver trancado no apartamento. Teríamos muito sobre o que conversar, o cachorro e eu. Comentaríamos o calor do Brasil, e eu lhe confessaria minha suspeita de que também não estava cumprindo meu destino biológico na Terra.

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Quando contaram que a Olguinha tinha sido comida pelos seus três cachorros pequineses houve uma revolta geral. Impossível! Só poderia acreditar naquilo quem não conhecesse a raça dos pequineses. Ou (disse alguém, num discreto aparte) quem não conhecesse muito bem a Olguinha.

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Uma vez demos um hamster para as crianças e o hamster fugiu da sua gaiola e desapareceu dentro de uma estante de livros. Nunca mais foi encontrado. Durante muito tempo imaginamos que ele reapareceria e voltaria, gordo e cambaleante, para a sua gaiola. Atrás do que também nos falta: tempo e paz para digerir os livros que consumimos com mais voracidade do que método. Mas o hamster nunca reapareceu. Desconfiamos que morreu de excesso de cultura.

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Outra vez um amigo me contou que seguira os rastros de uma falange de cupins através da sua biblioteca. Os cupins tinham atravessado coleções inteiras, capas duras e brochuras, deixando atrás de si um único túnel contínuo e caprichado. Só tinham interrompido sua marcha uma vez: para devorar uma ilustração de página inteira de um dos volumes. Segundo o meu amigo, a ilustração era de uma biblioteca.

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Minha infância foi sem bichos mas certa vez um gato começou a frequentar, por sua conta, nosso quintal. Era todo branco e tinha um olho azul e o outro cinza. Ficou durante anos, nunca entrou na casa e um dia desapareceu, tão misteriosamente quanto aparecera. Talvez tivesse sido alertado pelo nome que lhe demos, Bob. Claramente, não éramos pessoas com as quais queria ter muita intimidade.

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Nossa filha do meio, a Mariana, tem dois padrinhos, o Beto e o Sérgio Rosa. E um dia os dois deram de presente para as crianças uma boxer, que recebeu o óbvio nome de Rosinha. A Rosinha cresceu sem muitos cuidados e fora da casa. O que deve tê-la marcado, psicologicamente. Tanto que nas raras vezes em que permitíamos que ela entrasse na casa, ou que ela escapava para dentro, tornava-se frenética. Entrava correndo, derrubando tudo e fazendo xixi por onde passasse, inclusive nos pés das visitas. Era o contrário de cachorro de apartamento: liberdade, para ela, era sair da rua e entrar na casa, o que também lhe dava a ilusão adicional de ser parte da família. É claro que não ficou muito tempo conosco. Não me lembro qual foi seu destino. E é preciso dizer que no caso de alguns visitantes, ela só fazia nos seus pés o que a boa educação nos impedia de fazer.

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A lógica das crianças. Num museu de História Natural, o pai aponta um esqueleto de dinossauro e diz para o filho menor que o bicho estava extinto há 100 milhões de anos. E o filho: “Isso dá quanto em idade de gente?”.


Domingo, 27 de junho de 2004.



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